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Perdas Inesperadas


“Quem sabe soletrar ‘adeus’, sem lágrima, nenhuma dor?” (Clara Becker), pergunta a poeta, desconfiando da quase impossibilidade de vivenciarmos perdas afetivas sem passar pela dor. A perda nos fala de um vínculo que se rompe de forma irreversível, sobretudo quando ocorre perda real e concreta – a morte.

A intensidade e duração da vivência que advém da perda (o processo de luto) de algo ou alguém afetivamente importante – seja a perda de um emprego, a ruptura de uma amizade, a separação de um amor – (perdas para a vida), ou a morte de um ente querido (perdas para a morte), vai depender de uma série de fatores. Estes, vão desde as características (estrutura psíquica) de cada pessoa enlutada, passam pela qualidade do relacionamento que a pessoa e família tinham com o ente querido que se foi, o suporte psicossocial que a família recebe, o histórico de perdas anteriores, até a forma como aconteceu a morte (se esperada ou inesperada).

Chamamos de processo de luto a reação à perda, o enfrentamento das etapas desse período. Dentre as fases comuns que as pessoas atravessam, temos: o choque ou torpor, a fase de anseio ou raiva; a desorganização e depressão, e por fim, a reorganização ou aceitação, quando é possível retomar projetos, novas relações, lidar com a dor da perda de uma forma mais serena. É importante destacar a alternância dessas fases, bem como a normalidade da presença de sentimentos como solidão, angústia, falta de interesse pela vida, sentimentos de culpa, além de sentimentos físicos como, falta de ar, falta ou excesso de apetite, insônia, fadiga, aperto no peito.

De uma forma geral, o luto é um processo de longo prazo (cerca de um a dois anos). Após este período, é esperado que a dor mais intensa diminua e que a pessoa consiga retomar suas atividades. Mas, no caso das perdas/mortes inesperadas, a dor é infinitamente maior e a elaboração da perda é lenta e muito mais sofrida, por exemplo: morte súbita; doença terminal de curta duração; acidentes de trânsito; acidentes de avião; acidentes naturais (terremotos, desabamentos); epidemias; mortes violentas (assassinatos, suicídios), o que favorece um luto complicado ou patológico. É comum as pessoas se afogarem na imensidão da dor, guardando eternamente sentimentos de raiva, indignação e culpa, questionando a justiça dos homens e a de Deus, abandonando sua vida em vida.

Como lembra novamente a poeta: “o tempo que antecipa o fim, também desata os nós”, ou seja, resolver as questões pendentes, agradecer, perdoar e ser perdoado, falar de sentimentos e até da saudade que sentirá, são vivências impossibilitadas para quem perde inesperadamente alguém.

A possibilidade que permite seguir a vida passa pelo enfrentamento da dor e das etapas seguintes. É preciso compartilhar a dor com a família, amigos, grupos de apoio - pessoas vivendo situações semelhantes, para que se possa aprender a conviver com a perda. É uma via dolorosa, porém mais saudável.

Cabe salientar que atravessar as tarefas necessárias no luto (reconhecer e aceitar a perda para depois poder voltar-se para o que ficou e seguir) para aprender a viver sem a(s) pessoa(s) perdida(s), no momento de uma dor tão aguda, pode ser facilitado tanto pela rede de apoio familiar e social, quanto pela ajuda de um profissional.

Um profissional que trabalhe com a terapia do luto auxilia a pessoa enlutada e o grupo familiar a atravessar esse processo, de forma a não carregar cotidianamente, e por longos anos, uma dor paralisante. Previne a instalação do luto crônico e de possíveis adoecimentos emocionais e físicos, capacitando-os a reorganizarem-se e a desenvolverem recursos próprios para superar a falta, convivendo com a saudade e o amor, encontrando um lugar para acomodar a dor.

Reinvestir amor e esperança na vida que fica pode parecer impossível diante de uma grande perda inesperada, mas é um caminho a ser alcançado. Poder amar as outras pessoas à sua volta não significa que não se ama mais a pessoa que partiu, pois se é verdade que “de tudo fica um pouco...” (Drummond), do amor fica muito e eternamente.

Autora: Ana Elisa de Castro







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