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Reflexão

Lembrar os que se foram

Lembrar os que se foram O Dia de Finados, como muito sabem, é o dia de celebração dos mortos e foi criado oficialmente pela Igreja Católica no século XI. Essa comemoração surgiu do encontro de duas culturas, a celta e a cristã. Os celtas (povo que habitava a região da atual Irlanda) tinham no seu calendário a festa conhecida como Samhai; eles acreditavam que nesse dia os dois mundos – o dos vivos e o dos mortos – ficavam muito próximos, e celebrar essa comunhão era motivo de comemoração. Já os cristãos, desde o século I, oravam pelos falecidos e visitavam os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja passou a dedicar um dia do ano para todos os mortos, aqueles que não eram lembrados e pelos quais ninguém rezava. No século XI, o calendário litúrgico cristão instituiu o Dia de Finados, em 2 de novembro, para não se sobrepor ao Dia de Todos os Santos, comemorado no dia 1º.

Assim, temos nos dias de hoje as seguintes datas comemorativas em relação aos que partiram:
  • 31.10: Véspera do Dia de Todas as Almas: em inglês, All Hallow's Eve, reduzido atualmente para Halloween, celebra todos os que morreram e foram condenados ao inferno (não é reconhecido no calendário cristão ou católico).
  • 01.11: Dia de Todas as Almas ou Todos os Santos: celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados.
  • 02.11: Dia de Todos os Mortos ou Finados: celebra todos os que morreram, independente de estarem no limbo ou não serem mais lembrados.
É interessante observar que entre as várias religiões existentes, a crença de cada uma delas em relação à morte influencia diretamente nos rituais de pós-morte e, conseqüentemente, também no processo de luto. Dessa forma, encontramos grandes variações no significado de morte e nas posturas diante dela, tais como:

No Catolicismo - Significado: a morte é vista como uma passagem, a porta de entrada para a ressurreição. (Todos serão ressuscitados porque Cristo é quem livra a pessoa do pecado, mas não existe a reencarnação; corpo e alma são uma coisa só). Ritual: vela-se o corpo e, além das orações populares que costumam ser feitas durante o velório católico, como o Pai Nosso e a Ave Maria, um padre ou ministro faz uma celebração para encomendar a vida da pessoa para as mãos de Deus. As velas, colocadas ao lado da urna, simbolizam a luz de Cristo ressuscitado e a vida que vai se consumindo, mas que sempre brilha. Luto: são feitas celebrações em memória do morto no sétimo dia, no primeiro mês e no primeiro ano. Acredita-se que esse processo precisa ser vivido para que melhor se possa lidar com a morte.

No Candomblé - Significado: a vida continua por meio da força vital do indivíduo. A parte imperecível do corpo (ou "ori") não acaba e toda morte é fruto de uma intervenção. O "ori" volta para a mesma família, mas em outro corpo. Já os homens fortes, que têm filhos, maturidade, prestígio social e morte aceitável, tornam-se ancestrais. Ritual: denominado "axexê", o rito funerário começa após o enterro e costuma durar vários dias. Na cerimônia, algumas pessoas que têm relação com o morto são chamadas para participar do ritual em que o espírito do corpo é encaminhado para outra terra. Nessa passagem, elementos simbólicos e materiais (objetos pessoais sacralizados) são quebrados e jogados em água corrente. Luto: a morte é uma desordem que leva tempo para ser superada. Após alguns anos, aquela pessoa passa a interferir na energia vital do grupo ao qual pertencia.

No Espiritismo - Significado: a morte não existe porque se acredita na eternidade do espírito. O corpo é uma veste, e a reencarnação serve para o espírito evoluir. Acredita-se que o médium é intermediário entre os vivos e a alma dos mortos, e isso significa que existe a possibilidade de comunicação com o espírito que já deixou aquele corpo. Quando o corpo morre, o espírito se desliga e fica no mundo espiritual estudando e se preparando para uma nova reencarnação. As encarnações acontecem até o espírito completar sua evolução. Ritual: o corpo é velado e enterrado ou cremado. As preces ajudam o caminho para o mundo espiritual. Luto: por não se acreditar na morte enquanto finitude, mas sim como uma passagem, o luto é vivido com conformismo em relação à separação que é tida como temporária.

No Islamismo - Significado: passagem desta vida para outra, eterna; quem faz o bem ganha o paraíso e quem faz o mal acaba no inferno. Desde a infância é passada a noção de que tudo que começa tem um fim e não se acredita na reencarnação, já que se acredita que a alma teve tempo suficiente na terra para cumprir sua tarefa. Ritual: o corpo é lavado pelos familiares – sempre do mesmo sexo – e enrolado em três panos brancos. Depois, é colocado em um caixão para que os parentes mais próximos se despeçam e levado à mesquita. A partir daí, apenas os homens participam. Luto: dura três dias. Quando a mulher perde o marido, o tempo sobe para 130 dias, período em que ela não pode sair de casa, a não ser em emergências.

No Judaísmo - Significado: é o fim do corpo material, mas não da verdadeira pessoa que é a alma eterna. A criança aprende desde cedo que a vida é feita de mudanças e que existe outro mundo, para onde as almas vão, chamado de "olam habá" (mundo vindouro). No entanto, a alma pode voltar para a terra num outro corpo para completar sua missão. Ritual: o corpo é envolvido em panos brancos, e o caixão é fechado para que ninguém mais o toque. Familiares e amigos rezam salmos. Parentes próximos cortam tecido da roupa para mostrar o luto. Luto: na primeira semana, os parentes se reúnem para rezar em casa. Apenas o espiritual conta, por isso os espelhos da casa, que refletem o corpo material, são cobertos. A pessoa é lembrada na data de morte por todos os anos seguintes.

No Protestantismo - Significado: período de transição para outra vida. Consideram importante ter fé na palavra de Deus, que julgará o destino da pessoa no céu ou no inferno, não a partir das ações dela, mas pela sua fé. Acredita-se em uma próxima vida em comunhão com Deus, mas não na reencarnação. Ritual: velório e enterro são feitos em homenagem à família do morto. Luto: não há regras.

No Zen-Budismo - Significado: o corpo se transforma em elementos básicos da natureza, mas a energia das ações e das palavras continuam repercutindo na terra por muito tempo. A meditação ajuda na preparação para se vivenciar a morte, já que possibilita a compreensão de que tudo é transitório e interligado. Acredita-se que um ser mais "verdadeiro" (mais puro) vai retornar e ao invés de utilizar o termo reencarnação, consideram renascimento mais apropriado. Ritual: flores, velas e incenso no velório. Os parentes usam roupas escuras e são feitas preces. Luto: preces ou transcrições de textos sagrados durante 49 dias a cada sete dias.

Como se vê, mesmo que culturalmente haja diferenças de acordo com as crenças religiosas, homenagear os mortos é uma prática comum entre os diferentes povos.
Cada pessoa deve ter seu próprio modo de vivenciar o dia de finados. O que importa no significado desse dia é observar o que faz sentido para si, e não se deixar levar por pressões familiares.... O que importa é se sentir bem na forma de se relacionar com o ente que partiu.

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